Uma Igreja pobre, dos pobres e para os pobres

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015


Passadas 5 décadas, o sopro de renovação trazido pelo Concílio Vaticano II ainda não se esgotou. Prova disso foi o encontro denominado Council50, que - inspirado nas palavras e atitudes do Papa Francisco - reuniu setores progressistas da Igreja Católica do mundo inteiro em Roma, de 22 a 24 de novembro. Temas como a participação efetiva dos leigos na tomada de decisões, o retorno aos valores essenciais do Evangelho como a pobreza e o serviço aos pobres, a vocação das mulheres e a possibilidade de sua ordenação, o reconhecimento das pessoas LGBT e a situação dos casais divorciados e recasados, entre outros foram debatidos, culminando numa declaração que busca retomar o espírito do chamado Pacto das Catacumbas.

No próximo sábado, os delegados do Brasil que estiveram no evento vão fazer um relato do que foi discutido e abrir o debate para que outras pessoas possam se apropriar destes temas e assim propor mudanças profundas em nossa estrutura eclesial e no seu papel frente ao mundo de hoje. Será na Capela do Santíssimo Sacramento, mantida pelos Jesuítas, na Rua Divinópolis, 545 - Vila Brasilina, região do Ipiranga. Iniciará às 17h. A seguir, às 19h haverá a missa de encerramento do ano do Grupo de Ação Pastoral da Diversidade (GAPD) e uma confraternização entre os presentes. Compareça e divulgue!

Foto originalmente publicada em http://www.publico.pt/mundo/noticia/papa-francisco-diz-que-a-pobreza-e-a-divida-que-a-america-latina-tem-1701219




[Em 13/12/2015, 22h] O nosso evento aconteceu e foi um sucesso! Acima, uma foto dos 4 cavaleiros (ou melhor uma amazona e três cavaleiros!) do Apocalipse, colocando suas questões, sempre enraizadas numa fé profunda no Deus amoroso e misericordioso, buscando a renovação da Igreja pelo sopro do Espírito.

Sobre caminhos e fronteiras

quinta-feira, 8 de outubro de 2015
Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Há alguns anos, o cineasta norte-americano Michael Moore – que dirigiu inúmeros documentários e filmes bastante críticos com relação a certos aspectos e valores da sociedade dos Estados Unidos – afirmou que o reconhecimento dos direitos dos homossexuais eram, em suas palavras, “a última fronteira” a ser vencida no mundo civilizado. Moore referia-se ao fato de que havia-se avançado nas conquistas sociais através das garantias trabalhistas, nas lutas emancipatórias da população negra, na equidade entre mulheres e homens, entre outros, mas que as pessoas LGBT – lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais – permaneciam no limbo, sendo alvo de violência psicológica e agressões físicas, sem que fossem respeitadas como cidadãs e cidadãos integrais.

De todo modo, olhando retrospectivamente, observamos que muita coisa mudou no Brasil e no mundo com relação aos grupos que alguns chamam de "minorias". Esse termo, porem, é inadequado por dois motivos: primeiro, porque numericamente negros e mulheres são majoritários em nossa sociedade; segundo porque remete a uma ideia de minoridade insinuando que se trata de "menores” (por exemplo, no quesito da idade) e que, portanto, precisam ser tutelados e protegidos. Além disso, embora os avanços sejam inegáveis, ninguém em sã consciência pode dizer que em nosso país o racismo e o machismo tenham sido eliminados, ainda que hoje existam dispositivos legais que os coíbam.

Mas a “última fronteira”, aludida por Michael Moore, parece ainda persistir quando se fala nas questões da orientação sexual e da identidade de gênero. Se, por um lado, há um grande número de sentenças favoráveis aos LGBT emitidas pelo Poder Judiciário, por outro, no campo legislativo isso não ocorreu e no âmbito do Executivo, as poucas ações afirmativas implementadas estão sob constante ameaça de serem perdidas ou até mesmo revogadas devido à pressão de grupos conservadores, de cunho moralista, apoiados em visões religiosas fundamentalistas (isto é, que não atentam para o cerne da fé e se prendem a uma leitura literal, não contextualizada, dos textos sagrados).

Em função do quadro acima, constata-se que a situação daqueles que não cumprem a norma socialmente imposta – que exige que todas e todos sejam heterossexuais e se comportem de acordo com o sexo biológico com que nasceram – é ainda muito dura e permeada de dificuldades em todas as esferas: na família, na vizinhança, na escola, no trabalho, nos locais de lazer... e inclusive nas igrejas. Nestas, ainda vigora a concepção de que não é possível ser cristão e LGBT ao mesmo tempo. Como se essas pessoas não fossem filhas e filhos do mesmo Deus a quem aprendemos a chamar de Pai, desconsiderando que somos irmãos e irmãs e, portanto, responsáveis uns pelos outros.

Mas a fé, aquela que remove montanhas e que nos coloca de pé e a serviço de algo maior, que nos ultrapassa, que nos mobiliza, que nos ilumina, também existe entre LGBTs. Há ainda muita incompreensão sobre estas pessoas por parte daqueles que acreditam que “são assim porque querem, porque escolheram confrontar a sociedade”, o que não é verdade. Nas próximas postagens neste blog, tentaremos aprofundar esta questão.

E, realmente, existem tanto dentro da Igreja Católica quanto nas outras denominações cristãs (e também nas não-cristãs), grupos de pessoas que assumiram uma luta que é ao mesmo tempo pessoal e coletiva: a de mudar a visão ainda estreita e equivocada sobre a diversidade sexual.

Por isso, finalizo este primeiro texto, comemorando o fato de que, nos dias 1 a 4 de outubro passado, ou seja, na antevéspera do Sínodo sobre a Família em Roma, reuniram-se indivíduos e representantes de grupos católicos LGBT para conclamar aos Bispos que examinem com carinho a situação destas pessoas no seio da Igreja (clique aqui para ler a Carta redigida ao final deste encontro). A grande inspiração para tal veio do próprio Papa Francisco que disse: “se uma pessoa é homossexual e ama a Deus, quem sou eu para julgá-la?” Abre-se então o caminho para uma nova abordagem pastoral, ainda que neste momento não esteja no horizonte nenhuma mudança na doutrina da Igreja. Por isso, continuemos na estrada, com fé e muita esperança, para enfrentar os obstáculos que certamente virão.

Em sua obra magistral, a peça de teatro Bodas de Sangue, o escritor espanhol García Lorca colocou estas palavras na boca da mãe do noivo: “enquanto se vive, se luta.” Vamos em frente, pois atrás de nós, vem gente!